Aumento de salários faz preço das ações do Walmart cair: qual a lógica disso?

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Sam Walton ficou conhecido por ter sido um notório pão duro e um patrão sovina, que pagou sempre o menor salário que pode para quem trabalhou com ele. Fez um império assim e hoje trabalham na companhia mais de 400 mil pessoas.

 

O atual CEO, Douglas McMillon, resolveu ser mais generoso que o founding father da corporação e aumentar o salário de todo mundo na empresa. No dia seguinte, as ações do Walmart despencaram 6%. A queda é a segunda maior na história da companhia, sendo a primeira em 2015 pelo mesmo motivo, quando o Walmart promoveu também um incremento no ganho de seus colaboradores e o valor das ações caiu 10%.

 

Fico aqui imaginando o baita puxão de orelha que o Douglas tomou do espírito do Sam direto do Além, mas imagino que não deva ter decidido baixar essa norma sem que o board da empresa fosse antes devidamente notificado e tivesse autorizado movimento tão relevante para a corporação.

 

O comportamento das bolsas diante desses movimentos é tão mais distante de humano quanto se pode ser, sendo estrita e friamente financeiro. As regras do capitalismo, há séculos, regem as bolsas dessa forma e muitas vezes fica difícil imaginar que elas mudem em algum momento no futuro, se é que um dia vão mudar.

 

Ou seja, as companhias que aumentam os salários de seus colaboradores têm valor menor para os acionistas do que aquela que mantém essa linha de despesa sob controle. Aliás, é assim que os salários são avaliados: uma linha (altamente relevante) de custo e, ao aumentá-la, o que se espera, ao menos num primeiro momento, é que a margem de lucro e EBITDA da empresa se ressintam desse nobre gesto e a rentabilidade caia.

 

A defesa da tese de Douglas aqui é a seguinte: os resultados da companhia no quarter foram excepcionais, os salários dos funcionários da empresa estavam defasados em relação ao mercado e, sua aposta maior, essa medida deverá ser valorizada no futuro, embora a curto prazo o mercado a puna severamente.

 

Há aqui uma esperança que vai na direção oposta ao que acabei de dizer sobre a eventual mudança dos critérios de avaliação de valor das bolsas, rumando para um viés menos financeiro e mais humano. É a aposta do Douglas.

 

As bolsas hoje passam a dar mais valor e premiar o preço das ações de empresas que buscam claramente ser mais sustentáveis e que zelem mais pela diversidade, por exemplo. Não tem nada de estritamente financeiro nisso, a não ser o fato de se perceber que se a sociedade se movimenta nesses sentidos, é de se esperar que as empresas que se movam nessa mesma direção sejam preferidas, no âmbito dos mercados reais, em detrimento das que não estão nem aí com esses temas. E que isso, em algum momento, se reflita no valor, para cima e não para baixo, de suas ações em bolsa.

 

Espero estar errado, espero que o Douglas esteja certo e que as bolsas mudem, sim, seu comportamento conservador que, muitas e talvez a maior parte das vezes, desconsideram a realidade do mundo lá fora, aquele no qual as empresas que investem habitam e do qual retiram seus lucros.

 

Pode ser ingenuidade. Só que não.

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