eGov: transformação digital para criar governos (e empresas) data-driven

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Por Marcos Maciel*

O ano era 2004. Eu trabalhava em uma consultoria que fora contratada para fazer uma radiografia do governo eletrônico. Conversei com bastante gente da administração e fiquei bem impressionado. Eles diziam as coisas certas. Estavam, ao menos em teoria, na linha de frente da transformação digital no mundo. Apesar disso, havia poucos serviços online.

Corte rápido para os dias atuais. Durante a pandemia, uma amiga sofreu um AVC e precisava dar entrada num pedido de auxílio-doença junto ao INSS. Conseguimos obter as informações necessárias, dar entrada no processo e ela começar a receber o benefício sem ir a uma repartição pública. Tudo online.

A comparação foi inevitável. Estamos hoje em outro grau de maturidade em termos de digitalização do serviço público e isso vai na contramão do mau humor habitual do brasileiro. Na última  edição do Trust Barometer da Edelman, nossos governos são retratados como incompetentes, pouco éticos, injustos e sem visão de futuro.

Felizmente, o esforço brasileiro não passa despercebido. A pesquisa Governo Eletrônico 2020 da ONU coloca o país no 20º lugar em termos de oferta de serviços públicos online – 68% de penetração.

Aprofundar essa jornada é fundamental: dados têm o poder de fornecer inteligência ao setor público, torna planejamentos mais realistas, permite ações preventivas e estratégias que resultam em serviços personalizados.

Por meio de um processo orientado a dados, as interações entre setor público e sociedade e com a iniciativa privada vão se tornar mais consistentes.

Por exemplo, o princípio KYC (Know Your Customer) é capaz de trazer segurança jurídica e de negócio para contratantes e fornecedores, reduzindo o espaço para corrupção e ineficiência. Essa é outra área em que o Brasil tem uma percepção ruim – 106º lugar no Índice da Transparência Internacional, mas ações iniciais estão sendo tomadas para resolver

O processo orientado a dados

Para ficar claro do que estamos falando aqui, vale citar os pilares sobre os quais se ancora um governo (e empresas) data-driven:

  • Dados abertos: quebrar a lógica dos silos de informação, que reproduzem a estrutura hierárquica dos governos.
  • Governança: garante a segurança dos dados, aumentando a confiança da sociedade. A adequação às boas práticas internacionais estimula a competitividade, a percepção de transparência e compliance.
  • Decisões com base em evidências: o uso de inteligência artificial gera insights para os líderes encarregados de programas e orçamentos na esfera pública, como, por exemplo, o auxílio-doença do INSS.
  • Colaboração: parcerias com o setor privado e cientistas de dados a fim de produzir novas soluções, aperfeiçoar processos e medir resultados, ajudando a resolver problemas complexos, como roubo de identidade, falhas nos cadastros de benefícios, pagamentos irregulares, etc.
  • Engajar os cidadãos: criar uma experiência satisfatória para o cidadão amplia o impacto dos programas.

Um dos grandes desafios está em implantar o Master Data Management (MDM), a centralização das informações (single source of truth), hoje contidas em sistemas legados imensos e complexos.

Temos bons e maus exemplos de MDM no governo. Um dos virtuosos é o CPNJ e a NFe. Quando duas empresas nacionais realizam uma transação, a nota fiscal garante acesso às informações relevantes para cobrança de impostos. O CPF e o IPVA também são assim.

E quando governo ou empresas nacionais precisam importar? Sem um dado como o CNPJ integrado na sua base de dados, todos ficam no escuro. Não conhecer o parceiro gera insegurança e abre espaço para transações suspeitas. Como a mesma empresa vende vinhos e ventiladores mecânicos para UTIs?!

Outra área com oportunidade de melhoria é o RG. Os dados ficam espalhados pelos Estados. Alguém, em tese, pode ter 27 identidades diferentes. Imagine então a gestão de prontuários de saúde no SUS, com informações espalhadas nos municípios e Estados.

O Ministério da Economia elevou o Governo Digital ao status de Secretaria. Entre as funções da SGD estão: definir diretrizes, padronizar e coordenar projetos destinados a simplificar os serviços, a governança, o compartilhamento de dados e o uso de canais digitais, além de otimizar gastos públicos com TI. Iniciativas recentes, como o sistema de compra do SICAF para estrangeiros, com o uso do DUNS Number, demostram que existem boas soluções quando o governo e a iniciativa privada trabalham juntos.

Fico feliz em constatar que as visões teóricas corretas lá atrás estão se tornando realidade hoje. Vivemos um momento estimulante para quem lida nesse setor. Temos a chance de integrar o país às melhores práticas globais trazendo benefícios às empresas, à concorrência, ao governo e aos cidadãos.

*Marcos Maciel é CEO da CIAL Dun & Bradstreet do Brasil

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