As Big Techs praticam monopólio ou apenas ficaram big demais?

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A concentração de poder das grandes empresas de tecnologia tem sido uma pauta constante em diversas discussões sobre publicidade, política, economia, empregos, comunicação, entre outros temas que são influenciados pelas Big Techs. A capacidade destas empresas influenciarem quase tudo o que acontece nas nossas vidas tem sido um incômodo para muitos especialistas em tecnologia, principalmente nos últimos tempos, quando se percebeu que é praticamente impossível um concorrente brigar de igual para igual contra estas empresas. foi justamente por este motivo que o departamento de justiça americano passou a investigar algumas dessas empresas, como Google e Facebook, pela possível prática de monopólio.

Antes de entrar no mérito da questão, precisamos recapitular um pouco da história dessas empresas. Google ajudou a organizar a internet pós anos 90 quando menos de 20% da população mundial tinha acesso (hoje somos 60%). O cenário era uma internet formada por um punhado de portais e diretórios desorganizados. O Facebook ajudou a organizar nossas conexões com as pessoas, principalmente, mostrando se elas estavam solteiras ou casadas (status de relacionamento foi a funcionalidade mais usada nos primeiros anos, segundo o próprio Facebook). Ninguém seria capaz de projetar o tamanho e influência que as duas empresas teriam na vida das pessoas e nas democracias do planeta. Os braços das Big Techs foram aumentando e se multiplicando. O Google desenvolveu um sistema operacional que domina mais de 70% dos aparelhos de celular do mundo. E também o browser mais popular do planeta. Ao mesmo tempo, o Facebook comprou potenciais concorrentes como Instagram e WhatsApp, alcançando mais de 2,5 bilhões de usuários no mundo. A Amazon, por sua vez, desenvolveu padrões muito elevados de eficiência no e-commerce e se tornou o maior anunciante do mundo. Hoje podemos dizer que estas empresas moldaram nosso comportamento online.

O modelo de negócio que promove essa prosperidade toda é a venda de anúncios. Para se ter uma ideia, juntos, Google e Facebook levam 51% do investimento em mídia digital no Brasil. O resto do bolo é dividido entre os milhares de veículos como portais e sites regionais. A capacidade de concentrar e refinar dados dos usuários faz com que ambos sejam imparáveis no seu crescimento.

A pergunta que se faz no momento de uma investigação antitruste é: o monopólio foi construído de forma intencional? Ou seja, adversários foram sufocados de alguma forma pelo poder econômico das Big Techs? Não tenho dúvidas de que a competitividade exigida pelos acionistas obrigou, naturalmente, a combater os concorrentes. É a lógica de qualquer empresa de capital aberto: crescer sem limite, sempre gerando lucro para os acionistas.

Eventualmente, as empresas se deparam com desafios éticos no seu negócio nessa corrida pelo crescimento sem limites. O exemplo mais próximo é o que está acontecendo neste momento quando Google, Facebook, Twitter, Amazon, entre outras grandes empresas de tecnologia, resolveram aplicar os seus termos e condições ao pé da letra para bloquear o presidente dos Estados Unidos após uma tentativa frustrada de golpe de estado. Do ponto de vista do negócio, é muito ruim perder um usuário como o presidente dos Estados Unidos e toda audiência que ele é capaz de gerar para estas plataformas. Afinal, a publicidade é um negócio que se alimenta de audiência. Mas, ao mesmo tempo, empresas que influenciam tantas pessoas também estão muito mais expostas à pressão popular.

Para entender a probabilidade de um processo antitruste do Departamento de Justiça dos EUA, é preciso voltar no tempo e olhar as decisões anteriores. Poucas vezes na história tivemos a decisão de dividir uma empresa pela prática predatória de mercado. Em geral, busca-se um acordo, como em qualquer processo judicial. O caso recente mais famoso foi o da Microsoft Vs Netscape, na virada do século. Foi justamente durante este processo, que praticamente paralisou o crescimento da Microsoft, que empresas como Amazon e Google saíram da garagem e foram buscar investimento. Curiosamente, uma das alegações contra o Google é de associar o seu sistema operacional Android com o browser Chrome pré-instalado, utilizando essa dobradinha para monopolizar a escolha do usuário pelo buscador do Google. Lembra muito o caso contra a Microsoft há 20 anos. Ou seja, pelo histórico das decisões, o mais provável é que não aconteça nada, além de muitas audiências com executivos que ficarão mais dedicados a salvar a empresa do que trabalhar no crescimento.

O interesse do usuário é o centro da discussão. Mas não somos ingênuos a ponto de ignorar a influência do poder econômico e interesses políticos. Há um forte lobby de outras empresas concorrentes para investigar as Big Techs. Além disso, existe a pressão popular, que envolve muitos acionistas pessoas-físicas, o que já está fazendo com que as empresas acenem com atitudes para agradar a torcida e atrair a opinião pública para o seu lado.

Não podemos esquecer que usuário também é um cidadão. A influência dessas empresas na disseminação de fake news e discursos de ódio é um ingrediente a mais nessa discussão complexa. A concentração de poder facilita o controle. O que é conveniente e péssimo ao mesmo tempo. A discussão sobre a prática de monopólio leva isso em consideração? É um julgamento extremamente complicado e que deveria envolver todas as principais supremas cortes do mundo. Não só a americana.

Fabiano Goldoni, sócio-fundador da Alright Adtech Company.

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