Resumir o Pensamento do Design ao framework do Design Thinking é de um amadorismo gigantesco…

Por Rodrigo Giaffredo | 25 outubro 2017

* Veja mais no canal “Inovação Possível” do YouTube

Estive num evento maneiríssimo hoje em São Paulo, o DevXperience 2017, e ouvi de uma das pessoas que assistiu a minha palestra a frase que usei como título do artigo. Daí pensei comigo “poxa, tá na hora de escrever sobre isso”.

Recentemente eu tenho visto um movimento de reação em relação ao pensamento do design, que tá ficando meio desproporcional e perigoso.

Veja que eu não tô nem usando o jargão “Design Thinking”, tô indo na essência mesmo, na forma de pensar, que aliás é uma das coisas mais extraordinárias, e que mais admiro nos designers, esses profissionais incríveis, capazes de criar coisas que efetivamente a gente ame, deseje e aprecie.

Quando alguém faz faculdade de design, levando em conta todas as suas ramificações e tals, as possibilidades de desenvolvimento são gigantescas, quase infinitas, dependendo da criatividade e da ambição profissional de cada um.

Pensa na genialidade humana, de chegar ao ponto de sistematizar a arte de criar. É meio assim que eu defino essa carreira. Arte mesmo.

E quando digo arte, digo no sentido amplo.

Produtos e serviços tinham tudo pra ser coisa vulgar, principalmente quando o modelo capitalista de produtividade como sinônimo de eficiência foi ultra contaminado pelo “mad marketing”, aquele que te faz consumir sem limites. Não tanto pela qualidade da conexão entre a coisa e a ideia que você faz dela, mas simplesmente pelo acionamento do sistema límbico que te faz comprar “porque tá barato”, ou “porque o produto é da marca tal”, ou “porque o presidente da empresa é o fulano de tal”, enfim, todas aquelas motivações extras, criadas e propagadas estrategicamente de forma a te confundir.

No meio desse turbilhão de mensagens subliminares e covardias neuro-disparadas, tem uma galera que permanece leal ao propósito de melhorar a vida das pessoas, à partir da criação de produtos e serviços encantadores, que de fato endereçam nossas intenções quando escolhemos embarca-los, de forma transparente, nas experiências que queremos ter.

Esses caras e essas minas são os designers. Gente que tem na veia, a preocupação com o uso que o ser humano fará daquilo que eles entregam.

Ou pelo menos deveriam ter.

Agora continuando nessa linha de pensamento, além do talento em si, cada vez mais observo que essa galera tem uma forma de pensar que realmente faz a diferença. Sem preterir as tais habilidades inatas, tais como bom senso estético, habilidades com desenho e criação de modelos mentais, bem como sua transformação em experimentos do mundo real, eu sinceramente acho que a forma como eles pensam faz muita diferença no desempenho do papel nobre que eles tem pra construção de um mundo que faça sentido pra nós, humanos.

E essa forma de pensar é antiga… lembro dos artesãos que existem desde muito tempo atrás, tipo milhares de anos atrás. Lembro também dos malucos de Bauhaus que em 1919, após criarem a primeira escola de design do mundo bem no meio ao turbilhão da Revolução Industrial marcada pelo Fordismo em 1904 – onde ser eficiente era sinônimo de produzir em escala – foram capazes de questionar o status-quo e dizer que “modelos de eficiência baseados em produtividade eram incapazes de criar coisas que as pessoas amem, apreciem e desejem”.

Muita água rolou desde então.

Daí em 1988 o cientista cognitivo Donald Norman, na maior boa vontade, joga na cara dos engenheiros da época, através do livro “A Psicologia das Coisas Cotidianas”, que à partir da segunda edição passou a ser chamado de “O Design das Coisas Cotidianas” (recomendo a leitura, sério mesmo), que a culpa por a gente usar mal as coisas criadas na época não era nossa (como sugerido pelos engenheiros de então), mas sim do design que elas materializavam, já que tudo era feito da forma mais antipática possível, ou seja, eram feitas pro deleite de quem as inventava, e não pra facilitação da vida de quem as consumia.

O problema, na minha visão, foi que à partir de então, e principalmente em 1991 com o surgimento do incrível e mal interpretado IDEO, o modelo mental dos designers, ou pensamento do design, foi vulgarizado absurdamente pelo termo “Design Thinking” associado puramente a frameworks e artefatos.

Gente, Design Thinking não é framework. É forma de pensamento – sério, traduz aí… Design Thinking = Pensamento do Design… #ViALuz

E essa forma de pensamento, ensinada nas universidades, é baseada em três pilares principais, que são empatia, colaboração e experimentação.

Tudo bem que o framework e os artefatos ajudam demais a executar a parada toda, porque de repente não é tão intuitivo assim pro grande público exercitar de forma coordenada essas três virtudes humanas. Eu mesmo tive e tenho até hoje experiências incríveis utilizando o framework D.School (de Stanford) e o IDT (da IBM) para criar coisas incríveis, extremamente bem vistas e utilizadas por aqueles que as recebem. Mas no fundo o que exercitamos toda vez que nos reunimos em torno desses frameworks são paradas humanas, e não sistemáticas.

Cá entre nós, existem coisas mais humanas que empatia, colaboração e experimentação?

A capacidade de enxergar o mundo através dos olhos do outro, ao invés de tentar impor nosso mundo nos olhos dele (isso que eu chamo de empatia, pra valer), é ou não é independente do design ou da profissão do designer?

E o lance de colaborar? Unir-se com quem mais estiver interessado, pra que um problema seja resolvido, de forma integral, sem agendas ocultas… é coisa de gente ou não é?

E finalmente, a experimentação. Criança que quebra brinquedo é novidade do século XXI? É coisa dos anos 90? Aprendizagem construtivista versus behaviorismo clássico, é discussão recente? Não né gente, pára!

Então olha só, antes de vulgarizar o design thinking, ou em tradução literal o pensamento do design, pára e reflete. De modo algum o acesso a esse conhecimento diminui a importância ou a relevância da profissão do designer, pelo contrário. Mas definitivamente, não é exclusividade deles, nem de nenhuma outra carreira ou profissão.

É qualidade humana.

Ele de repente coloca em evidência aquilo que esse profissional tem de melhor, que é a forma como ele raciocina, cria, e se relaciona com os demais. Num modelo mental empático, colaborativo e experimental.

E empatia, colaboração e experimentação são, antes de tudo, qualidades humanas. Que aliás diferenciam os melhores humanos.

Isto posto, será que ser capaz de pensar como um designer, é exclusividade dos designers?

Que cê acha?

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