Onde habita a ética, no meio ou na mensagem?

Por Pyr Marcondes | 25 novembro 2016

A internet tem sido canal de escrotos e canalhas. Há quem por isso defenda que os outros meios são mais éticos. Será?

Os recentes episódios de matérias falsas na internet de lado a lado na campanha presidencial norte-americana. A revelação de que robôs respondem pela maior parte do tráfego digital. Os dados fake do Face. O desbaratamento de uma rede de pedofilia na internet profunda no Brasil. A tese de que a internet nos deixa burros porque só nos mostra o que queremos ver e não promove o diverso e a diversidade (de resto, base da inteligência criativa). A conclusão ligeira, portanto, de que a internet é coisa do demo e que precisa ser controlada. Isso de um lado.

De outro, a ortodoxa premissa de que os meios tradicionais seguem como os bastiões da moral. Seriam eles o repositório resistente dos fundamentos da tão necessária e vital ética dos homens, sem a qual, viramos uma matilha de animais selvagens.

Kelly Williams, diretor comercial da ITV inglesa, em congresso de TV que está sendo realizado em Londres, defendeu uma campanha pela transparência e confiabilidade do setor. Nas entrelinhas de seu discurso, a lógica de que o meio se entranha da Verdade. Aquela, com caixa alta.

Publishers da mídia impressa alegam-se igualmente ímpios. Gatekeepers e alma ungida (sabe-se lá por que divindade) dos valores mais nobres do corpo social. Foi assim antes da internet, segue sendo assim, querem alguns, após a revolução da Era Digital.

Bobagem.

Meios não são agnósticos de responsabilidade, é verdade, mas são agnósticos de valores morais (*1). Não promovem nada, não defendem nada, não preservam nada, não destroem coisa alguma, se não tiverem um empurrãozinho.

Quem faz tudo isso somos você e eu. Gente faz essas coisas. A ética não é prerrogativa do meio, é fruto indissociável, por inevitável, da mensagem. E a mensagem é produto dos homens (*2).

Há jornais éticos e jornais bandalhos. Idem TVs e rádios. Idem ainda veículos digitais, inclusos aí todos os que conhecemos.

Não é a internet que nos faz burros oferecendo-nos apenas mais do mesmo e sendo assim anti-democrática e disseminadora de preconceitos e ditaduras de valores e pensamentos unívocos. Somos você e eu.

Desde sempre nos aproximamos dos iguais, não foi a internet que inventou isso.

Desde sempre houve meios reacionários e dominadores, também não foi a internet que inventou isso.

A diversidade e sede por luz, inteligência, transparência moral e o avanço do conhecimento são tão intrínsecos a nós quanto a sede por poder, a vocação para a dominação e o escárnio, a sede vampira pelo sangue alheio.

Tudo isso somos eu e você.

Não há meio com significado, sem mensagem. Aula de semiótica básica.

Portanto, tome tento da sua parte e não seja ingênuo (ou burro) desavisadamente em meio a toda essa discussão que invade a mídia.

O inferno não são as coisas, nem os outros. Ele é responsabilidade sua, porque habita dentro de você.

(*1) Quando Marsahll McLuhan disse que o meio é a mensagem, ele atribuiu valor ao meio como indutor da mensagem. Ele quis dizer que é nativo do meio, por definição, sua nada ambígua vocação por insinuar-se na compreensão da mensagem, criando uma relação simbiótica na forma como a mensagem é percebida. Trata-se da mais brilhante interpretação da comunicação moderna e é uma questão de linguagem. A linguagem não é agnóstica. Isso vale para qualquer meio e para qualquer mensagem, nada escapa. Mas de novo, a criação, produção, distribuição e recepção da mensagem através dos meios (cadeia de valor da nossa indústria) não são obra do acaso. Somos nós.

(*2) Rolando Barthes levou adiante essa lógica em seu livro O Grau Zero da Escritura em que nos ensina porque a linguagem não é agnóstica per se. Se escrevermos a letra “a” num papel em branco estamos inserindo esse gesto no ambiente social e histórico que nos rodeia e, por isso, esse é um gesto político. A linguagem é um gesto político. Portanto, de novo, tudo somos nós.

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