As melhores coisas da vida não são escaláveis (e o que isso tem a ver com inovação e tecnologia)

Por Tiago Bueno | 08 março 2017

“Escalável” é um termo muito, muito (e cada vez mais) usado quando se fala em novas tecnologias. As ideias, soluções e negócios que estão revolucionando muitos mercados hoje em dia e os que provavelmente irão surgir e crescer nos próximos anos respondem à premissa de ser escaláveis, ou seja, não dependem (ou dependem muito pouco) da intervenção humana para crescer.

Se a gente parar para pensar, é o mesmo conceito da Revolução Industrial: produção em massa, etc. Nenhuma grande novidade então, somente o resultado de uma tendência que nasceu já há algum tempo sendo aplicado em um contexto mais atual.

Por outro lado, quando parei para pensar no que o ser humano mais valoriza (amor, família, amizade, aquele prato preferido preparado com todo o carinho pela sua mãe no domingão em família), me dei conta de que nada disso é escalável! Tudo o que mais valorizamos requer muito empenho em termos de recursos humanos e (mais ainda!) um empenho extremamente personalizado.

Mas aí é que entra o paradoxo que mais me surpreendeu: apesar de o modelo de escalabilidade funcionar cada vez mais no mercado, ao mesmo tempo a nossa sociedade vem valorizando de maneira muito crescente a ideia de um consumo “não escalável”, fato esse comprovado pelo aumento de consumo de alimentos orgânicos, de carnes de animais que não foram maltratados, de roupas que utilizam tecidos naturais e que sejam produzidas artesanalmente, etc.

Aí chegamos a uma realidade na qual o “startupeiro” que tem sócios, consultores e desenvolvedores espalhados por diversos cantos do mundo e que se vangloria de ter um modelo de negócio ágil, “lean”, escalável e consistente é o mesmo que compra produtos orgânicos, talvez gerados pelo trabalho de uma única família, com quase nenhum uso de tecnologia, que gera produtos extremamente sazonais e dependentes do clima e, até mesmo, sem a garantia de que o produto que ele comprou hoje vai ter as mesmas características na semana que vem.

Como não adorar essa contradição do ser humano?

E foi isso tudo que me remeteu à consideração sobre inovação e tecnologia, termos muitas vezes utilizados como sinônimos: inovar não necessariamente é sinônimo de utilizar uma tecnologia. E vice-versa: a adoção de uma tecnologia não se constitui necessariamente em uma inovação.

Da mesma maneira que o produtor rural inova investindo (mesmo sem ser escalável e sem grandes tecnologias) em um renovado mercado “bio”, a empresa que adota uma nova tecnologia não necessariamente está inovando… E eu até me arriscaria a dizer que, na maioria dos casos, está só seguindo o que o mercado (ou, pior, os concorrentes) já aprendeu a fazer.

Para que a inovação ocorra, o segredo não é adotar uma tecnologia, e sim gerar valor. É conseguir fazer o que é certo no momento certo para gerar um benefício concreto, que pode até parecer banal, mas nem sempre é permitido pela cultura organizacional ou (até mesmo) pela falta de acesso à tecnologia correta.

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