A incrível história da empresa que não tinha lucro

Por Vanessa Pugliese | 05 Abril 2016

Era uma vez uma empresa com 20 anos de existência, muitos deles sem contabilizar lucro algum, e, mesmo assim, detentora de um valor de mercado de mais de US$ 200 bilhões.

História da carochinha? Não exatamente. Ela poderia facilmente se passar por uma, tivesse acontecido no contexto tradicional do mundo corporativo. Mas ela existe e trata-se da Amazon, que se tornou uma das empresas mais valiosas dos Estados Unidos mesmo após, declaradamente, anunciar uma sucessão de “prejuízos” em nome da inovação.

Vamos falar sobre responsabilidade social, mas não da maneira como a conhecemos. Na história tradicional, a responsabilidade social é vista como um complemento ao propósito das corporações. A única razão de existência das corporações são os lucros, e o personagem mais importante é o acionista. Já na versão contemporânea desse conto, responsabilidade social nada tem a ver com filantropia, muito menos com ações como “diálogo com a comunidade” e meros reportes socioambientais. Em sua essência, responsabilidade social significa simplesmente prestar um serviço que enderece um problema legítimo dos cidadãos. Sendo as empresas responsáveis por criar fluxo social e econômico no mundo, a responsabilidade social é parte intrínseca de suas missões.

Qualquer tipo de negócio deve ter o objetivo de criar valor para a comunidade. Em 1995, Will Hutton, em seu livro “The State We’re In”, defendeu um modelo em que as decisões das empresas deveriam considerar não somente os interesses dos acionistas mas também os dos funcionários, dos fornecedores e da sociedade. A construção e manutenção do negócio envolve levar os interesses de todos esses grupos para a mesma direção.

O próprio conceito de lucro, em sua semântica pura, não se limita à esfera financeira. O dicionário define lucro como “aquilo que se pode conseguir ou tirar de algo ou alguém; vantagem, privilégio, proveito: lucro financeiro, lucro sentimental, lucro moral ou intelectual”. Esse modelo mental e de gestão é forte o suficiente para definir o direcionamento das empresas e possivelmente se reflete no lucro material também, embora nem sempre seja imediato. Até mesmo sob a perspectiva de um acionista, Ian Davis, ex-managing diretor da McKinsey & Co., afirma que a maioria dos valores das ações – tipicamente mais de 80% em mercados americanos e do Leste Europeu – depende de expectativas de lucros das companhias além dos próximos três anos. Só que o grande pulo do gato está em olhar o lucro como uma consequência da meta principal, que é, de fato, tratar uma questão da sociedade.

A Amazon deixou um legado. Para grande parte dos empreendedores – observemos o movimento das startups –, o pontapé inicial para se lançar no mercado não é o lucro, e sim o propósito de resolver alguma questão do ser humano. Se não fossem por isso, fracassariam no primeiro mês. Os lucros vêm na sequência. Isso quando vêm…

Quando o Instagram foi vendido para o Facebook, seu lucro era zero. Ele foi vendido por US$ 1 bilhão.

Em 2013, o Snapchat, que também tinha zero de lucro, recusou uma oferta de compra feita pelo Facebook no valor de 3 bilhões de dólares.

O WhatsApp nasceu com um propósito: nunca vender anúncios. Ele só começou a obter um faturamento (irrisório, diga-se de passagem) no quinto ano de existência, cobrando uma pequena anuidade dos usuários. Ele foi vendido por US$ 16 bilhões e hoje vale cerca de US$ 19 bilhões. Mas continua sendo um negócio que dá prejuízo.

Por que esses casos desafiam a lógica tradicional de compra e venda?

Porque o que está em jogo aqui são justamente as causas que movem os indivíduos (e que podem transformá-los ou não em consumidores leais). Para prosperar, o negócio tem que ser forte o suficiente para mudar hábitos. Hoje são mais de 1 bilhão de usuários no WhatsApp. Quantos serviços hoje no mundo são capazes de atingir quase 1 bilhão de pessoas? Alguns. Nenhum deles é uma operadora de telefonia. E quantos são capazes de fazer isso sem infraestrutura (no caso do WhatsApp, de redes) própria? Poucos, pouquíssimos, para contar nos dedos. Do outro lado, as grandes empresas estão atentas a isso e investindo cada vez mais nesse tipo de empreendimento.

É preciso parar de dividir a sociedade e o mundo empresarial em duas partes isoladas e sem nenhuma relação entre si. E de achar que o que acontece em uma sociedade não é relevante para outra: vivemos em um mundo totalmente achatado, sem muros, e nossa hiperconectividade facilita a comunicação instantânea e a formação de tribos. O professor R. Edward Freeman, da University of Virginia, explica que o capitalismo opera bem porque, como seres humanos com necessidades e aspirações, precisamos da cooperação com nossos semelhantes a fim de receber e produzir o que nós e os demais buscamos. O consumo é um incentivador da interação social e da criação de valor, aproxima as pessoas em todo o mundo e faz com que tenham hábitos, interesses e estilos de vida semelhantes.

Não se trata de romantizar a história da ideia brilhante nascida de uma conversa casual entre amigos em uma garagem no Vale do Silício e escalada globalmente. A sociedade evolui a partir do lucro, empregos são gerados, a inovação e o desenvolvimento humano são fomentados. Mas, se não começam por um problema, dificilmente prosperarão, pois os negócios do futuro serão lembrados não quando gerarem lucros, mas quando mexerem nas estruturas da sociedade.

Comentários

  1. Aí uma das grandes vantagens da economia norte-americana, que cria um ambiente propício para o desenvolvimento da inovação, E onde se pode planejar o médio e longo prazo, bem diferente do nosso Brasil. Inovação é a chave para fortalecer a economia, e por isso precisamos mudar a mentalidade das nossas empresas e sociedade em relação a isto. Muito legal essa iniciativa da IBM, que não por acaso é americana.

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