Dinheiro, Pra que Dinheiro? Por Omarson Costa.

Por Innovation Insider | 27 julho 2017

(*) Por Omarson Costa

Pouco a pouco, ter dinheiro no bolso está se tornando um hábito ultrapassado e desnecessário.

Em uma tarde no shopping você se dá conta de que deixou a carteira em casa e não trouxe sequer um cartão de débito ou crédito para pagar as compras ou sacar dinheiro. Não tem moedas nem mesmo pro cafezinho! E agora? A cena não é nada improvável e muita gente esquecidinha já teve que voltar para casa com a frustração de não ter aproveitado o passeio por estar ‘totalmente desprevenido’, sem um mísero níquel.

Mas, pouco a pouco, ter dinheiro no bolso está se tornando um hábito ultrapassado e desnecessário. Em um movimento que vem tomando força com o avanço das fintechs e parcerias entre empresas financeiras e operadoras de telecomunicações, os pagamentos à vista em dinheiro, em cheques (qual foi a última vez que você assinou um?) ou cartões de plástico estão sendo substituídos pelo dinheiro móvel ou novas moedas digitais.

Uma sociedade totalmente ‘cashless’, sem dinheiro, não é uma realidade distante. Muito pelo contrário. Com consumidores cada vez mais conectados e a alta penetração de smartphones e celulares, é crescente o lançamento de aplicativos de pagamentos através de dispositivos móveis, até mesmo para transferências entre pessoas (P2P). Ainda visto como uma economia ‘underground’, os bitcoins são cada vez mais aceitos para pagamentos, inclusive em estabelecimentos físicos. No Brasil, empresas como a Mercado Bitcoin.net já realizam a compra e venda das moedas virtuais.

Com estes aplicativos instalados em seus celulares, os consumidores precisam apenas aproximar seus telefones de outros equipamentos (NFC), que fazem a leitura e a confirmação da transação, ou digitar senhas pessoais, exatamente como já estão acostumados quando usam o cartão em terminais POS e ATMs.

A partir da evolução dos aplicativos e dos gateways de pagamento, os smartphones também irão oferecer diversas outras formas seguras para fazer compras num piscar de olhos, literalmente. No ano passado, as japonesas Fujitsu e a NTT DoCoMo, operadora de telefonia móvel, lançaram o Arrows NX F-04G, o primeiro smartphone do mundo que utiliza um leitor de íris para autenticações, inclusive de pagamentos móveis.

Inclusão Financeira

Muitos defensores do ‘mobile money’ lembram que o dinheiro em cédulas sustenta atividades criminosas organizadas, como, em uma dimensão maior, o terrorismo, a evasão de divisas (geralmente com notas escondidas nas cuecas) e o tráfico de drogas, ou os inevitáveis trombadinhas do centro do Rio, nos pequenos furtos cotidianos.

A segurança é, sem dúvida, um dos importantes benefícios da adoção da tecnologia em transações financeiras. Mas está longe de ser o único. Outro não menos impactante e que irá mudar o mercado bancário como hoje conhecemos é o atendimento a uma grande fatia da população mundial que hoje não possui acesso a serviços financeiros – nada menos que dois bilhões de pessoas no planeta e, segundo a Febraban, 40% dos brasileiros.

Muitas destas empresas nascentes não estão ligadas a uma instituição financeira tradicional e estão de olho justamente nos clientes que não são atendidos por Itaú, Santander, Caixa ou Banco do Brasil.

Com uma grande população rural, apenas para citar um fator favorável, não é difícil imaginar o tamanho da oportunidade no País para oferecer serviços financeiros em regiões remotas sem precisar investir na contratação de funcionários ou em um único tijolo para construir agências bancárias, que, assim como o dinheiro, deverão se tornar cada vez mais raras nos próximos anos, outra consequência da digitalização de serviços financeiros e da consolidação de startups suficientemente capitalizadas para fazer frente aos grandes Bancos.

Além de passar a ser incluídos no sistema financeiro, estes novos clientes também ganham com menos burocracia e a isenção ou cobrança de tarifas com preços mais competitivos, estimulando assim a concorrência no setor.

Mais de 411 milhões de usuários de Dinheiro Móvel

O fim do dinheiro ganha força global e é uma tendência apoiada por países como a Dinamarca, que pretende ser o primeiro do mundo a extinguir as cédulas e obrigar o comércio, exceto serviços essenciais como farmácias e os correios, a não aceitar pagamentos em espécie.

De acordo com o estudo 2015 State of the Industry Report on Mobile Money, da GSMA, o dinheiro móvel já é utilizado por mais de 411 milhões de pessoas em todo mundo e está disponível em 85% dos países onde a população não tem acesso a serviços financeiros tradicionais.

A demanda mundial por serviços financeiros seguros e acessíveis é gigante. A adesão às novas tecnologias de pagamento e as vantagens do extermínio do papel moeda são evidentes, mas para que o dinheiro móvel se torne uma realidade irrefutável e estruture um ecossistema sólido para sua perpetuação será preciso o contínuo envolvimento das operadoras de telecomunicações, das instituições financeiras, dos fabricantes de equipamentos, o apoio de investidores destemidos e, principalmente, da resiliência de empreendedores dispostos a vencer o desafio de substituir de uma vez por todas um meio de pagamento arcaico criado no século VII A.C., quando foram cunhadas as primeiras moedas em metal na Lídia (a atual Turquia).

Foi a necessidade de guardar as moedas em segurança, aliás, que deu origem aos bancos, que, por sua vez, inventaram as cédulas em papel. Com o eminente fim de sua criação, eles assistem o eclodir de uma concorrência entrincheirada com armas digitais e muita disposição para criar negócios capazes de atender com excelência quem nunca teve, e nunca terá, um cartão de banco.

Difícil arriscar dizer quem vai vencer esta batalha, mas aposto – e não precisa ser uma aposta em dinheiro! – que o vil metal vai mesmo desaparecer no vendaval da inovação. A natureza agradece.

Alguns fatos e dados recentes

– Os pagamentos digitais irão movimentar US$ 3,6 trilhões este ano em todo mundo, crescimento de 20% sobre 2015, de acordo com relatório da Juniper Research. Os dispositivos móveis irão responder por 40% das transações.

– Segundo a Febraban, 12% das transações bancárias de 2014 foram feitas pelo canal mobile banking; do total de usuários de internet móvel, 34% usam o mobile banking

– O Bank of America e o U.S. Bank anunciaram uma aliança com a Early Warning’s clearXchange network para viabilizar a realização de pagamentos P2P (person-to-person) através do aplicativo do celular.

– O dinheiro em espécie está proibido em lojas de roupas, postos de combustível e restaurantes da Dinamarca, cujo Banco Central já não fabrica mais cédulas. Um em cada três cidadãos do País usa o MobilePay, aplicativo para transferir dinheiro a outros celulares ou contas.

– Novas tecnologias também já estão permitindo fazer pagamentos sem nem mesmo precisar do celular ou qualquer outro dispositivo. Recentemente, uma empresa jordaniana implantou em um campo de refugiados sírios na Jordânia um sistema de pagamento que, através do escaneamento da íris, possibilita a compra de alimentos básicos em comércios locais, tornando a entrega de alimentos mais eficiente, fácil e segura. O sistema funciona com base no registro de dados biométricos da Agência das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), que recebe a informação, confirma a identidade e autoriza a compra.

Artigo originalmente publicado em ProXXIma.

(*) Omarson Costa é formado em Marketing, tem MBA e especialização em Direito em Telecomunicações. Em sua carreira, registra passagens em empresas de telecom, meios de pagamento e Internet.

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