Como o lado podre dos homens vai salvar a internet do lado podre dos homens

Por Pyr Marcondes | 14 Março 2017

Só sendo hacker e usando as mesmas armas dos criminosos da Dark Web, vamos vencê-los. E se ligue: essa guerra já começou faz tempo.

Há 4 anos, aqui mesmo no SXSW, assisti a uma palestra sobre a Dark Web. O palestrante era um garoto que aparentava não ter mais de 25 anos, que falava com absoluta propriedade sobre o lado negro da internet, onde ocorrem coisas como tráfego de pessoas, compra e venda ilegal de órgãos, drogas e armas, onde você se conecta com comunidades de pornografia infantil, onde se compram documentos falsos e se preparam golpes a governos e algumas guerras, onde você pode contratar um assassino profissional ou adquirir componentes para fabricar bombas, com direito a tutorial em vídeo. É o lado podre de nós, homens, ninho dos hackers.

Pois o garoto falava que nossa única chance frente a tudo isso era combater hackers com kackers e nos proteger da podridão usando o mesmo recurso da internet profunda, que são algoritmos encriptados de alta segurança. Ele dizia que nossos celulares deveriam já vir com esses códigos de fábrica.

É a mesma posição do Julien Assenge sobre a investigação das nossas vidas pelos órgãos de segurança dos governos e as empresas que invadem nossa privacidade e pegam nossos dados sem que tenhamos o menor conhecimento disso.

Tinha meia dúzia de gatos pingados naquela palestra.

Ontem, aqui, no mesmo SXSW, o mesmo tema foi abordado na excelente palestra “Lightining the Dark Web”, de Christopher White. Só que desta vez a internet escura e podre atraiu milhares de pessoas, que lotaram um imenso auditório do evento.

O mundo mudou muito em quatro anos e todos agora querem saber como se proteger e como funciona essa tal internet podre, mas altamente avançada, que não vemos mas está lá corrompendo nossas vidas e toda a vida em sociedade do Planeta.

Cristopher White é um dos hackers do mundo do bem. Ele conhece a internet escura como os hackers que nela habitam. Navega nela com a mesma intimidade. Conhece seus códigos encriptados e as quadrilhas que nela trafegam e traficam. Ganhou reconhecimento oficial do Governo dos Estados Unidos com vários títulos honoríficos por seu trabalho e atua há anos em íntima proximidade com o DARPA, que para quem não sabe é um órgão de segurança dos Estados Unidos, que anos atrás fez uma coisa muito interessante: criou a internet. Ah, ele hoje é funcionário da Microsoft, de um departamento que se chama Microsoft Digital Crimes Unit, que a maioria dos presentes certamente ignorava a existência.

Sua tese é simples: combater hackers com dados, pesquisa profunda e conhecimento detalhado de como agem, o que fazem, como fazem, mapeando-os com sistemas de informação altamente complexos, como a própria Dark Web, para, como diz o título de sua palestra, colocar assim luz sobre a escuridão desse submundo virtual, o submundo de nós mesmos.

Esse cara e seu time trabalham com data science avançada e altamente complexa, desenvolvendo softwares de alta performance, usando Inteligência Artificial e Business Intelligence para, ao final, compor com tudo isso painéis e dashboards lindos, coloridos e plotados no mapa mundi, que nos mostrou, em que vemos identificados onde estão acontecendo os crimes e o que os criminosos estão fazendo. Impressionante.

Conclamou os desenvolvedores do mundo a ajuda-lo. Tipo, cola junto e vamos acabar com os bad guys. É um grande chamado. Eu, se fosse dev, colava.

Para complementar o tema, assisti também a um painel chamado “Tacking Back The Internet”, sobre ativismo digital e como combater os extremistas, de nazistas a ativistas do Estado Islâmico. Tema correlato, portanto, certo?

A arma proposta ali foi dar poder aos estudantes de todo o mundo, através de um programa com funding de investidores do bem e de vários governos do mundo (40 países já se engajaram), para que descubram e proponham, em concursos tipo hackathon (500 por ano internacionalmente), soluções para combater os ativistas das causas discriminatórias e criminosas, que estão em cada esquina da internet, fomentando o post truth, a mentira e a matança como instrumentos de dominação.

A palavra de ordem em ambos os painéis foi clara … vamos contra-atacar! É nossa única saída para salvar a web do seu lado podre, que nós mesmos colocamos lá. Luz na escuridão.

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